TRW Insight / Bangladesh
Famílias com ligações a Bangladesh que vivem em Portugal ou no Brasil lidam com duas leis sucessórias. Em Daca, a religião do falecido decide as quotas, e só documentos bangladeshianos transferem terra, contas e ações para os herdeiros.
Herança em Bangladesh: o que famílias no estrangeiro precisam de saber
A herança em Bangladesh não se rege por um código civil único, mas pela lei pessoal do falecido, determinada sobretudo pela sua religião. Para famílias bangladeshianas instaladas em Portugal, casais mistos e herdeiros que vivem em Lisboa ou São Paulo, isso significa trabalhar com dois sistemas ao mesmo tempo: a lei portuguesa ou brasileira, que regula a sucessão no país de residência, e a lei de Bangladesh, que decide como a terra, o apartamento ou a conta bancária em Daca passam para os herdeiros.
Este guia explica quem herda e em que proporção segundo o direito muçulmano, hindu e cristão, que documentos provam a qualidade de herdeiro, como se faz a partilha e a mutação do registro fundiário e como agir a partir do estrangeiro.

Resumo: Os bens muçulmanos dividem-se segundo as quotas fixas do fara'id, com a alteração do artigo 4 da Muslim Family Laws Ordinance 1961 a favor dos netos órfãos. Os bens hindus seguem a escola Dayabhaga e os cristãos o Succession Act 1925. Os herdeiros provam a sua qualidade por certificado warish, certificado de sucessão ou probate, registram a partilha de imóveis e fazem a mutação antes de poder vender ou hipotecar.
Ponto-chave: Uma decisão de um tribunal português ou brasileiro sobre a sucessão não transfere, por si só, um terreno em Bangladesh. Para a terra, o sub-registrar e o gabinete fundiário exigem documentos bangladeshianos: prova de herdeiros, escritura de partilha registrada e mutação. Comece por eles cedo, sobretudo se houver herdeiros menores ou em vários países.
Em resumo
Lei pessoal
A religião do falecido decide o regime: fara'id, Dayabhaga ou Succession Act 1925.
Netos órfãos
O artigo 4 da ordenança de 1961 dá-lhes a quota que o pai ou a mãe pré-falecidos receberiam.
Viúva cristã
Um terço havendo descendentes; o resto divide-se igualmente entre filhos e filhas.
Mediação prévia
Desde 31 de julho de 2026, em 30 distritos, litígios de partilha passam primeiro pela mediação.
Documentos do estrangeiro
Portugal e Brasil aplicam a Convenção da Apostila com Bangladesh desde 30 de março de 2025.
Índice
Herança em Bangladesh: que lei se aplica
Bangladesh não tem lei sucessória unificada. Para muçulmanos, o Muslim Personal Law (Shariat) Application Act 1937 manda aplicar o direito muçulmano à sucessão, às doações e aos waqfs, apesar de qualquer costume em contrário.[2] A Muslim Family Laws Ordinance 1961 acrescenta uma alteração legal importante, a dos netos órfãos, com prevalência sobre qualquer lei ou costume contrário.[1]
Os hindus seguem a escola Dayabhaga, completada pelo Hindu Women's Rights to Property Act 1937.[5] A parte V do Succession Act 1925, com as regras da sucessão sem testamento, não se aplica a hindus, muçulmanos, budistas, sikhs ou jainas; na prática, rege os cristãos, enquanto os mecanismos de probate, administração e certificados de sucessão servem a todos.[7]
Em qualquer regime, pagam-se primeiro as despesas de funeral, depois as dívidas e só então os legados e as quotas.[4]
Quando a família vive em Portugal ou no Brasil
Em Portugal aplica-se o Regulamento (UE) n.º 650/2012: em regra, a sucessão rege-se pela lei do Estado da última residência habitual do falecido, mas a pessoa pode escolher a lei do Estado da sua nacionalidade.[12] Um cidadão bangladeshiano residente em Lisboa pode, assim, escolher em testamento a lei de Bangladesh; se não o fizer, a lei portuguesa tende a aplicar-se à sucessão vista de Portugal.
No Brasil, o artigo 10 da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro manda aplicar à sucessão a lei do país do domicílio do falecido, com regras de proteção do viúvo ou da viúva e dos filhos brasileiros quanto a bens situados no Brasil.[13]
Nenhuma dessas regras obriga as autoridades de Bangladesh. Quem trata de um terreno em Daca ou em Sylhet aplica o sistema de lei pessoal aqui descrito. Uma decisão estrangeira não atualiza o registro fundiário de Bangladesh. O resultado pode divergir entre os dois países; um plano coordenado nos dois países evita surpresas.
Direito muçulmano: as quotas do fara'id
O fara'id divide os herdeiros em titulares de quotas fixas, previstas no Corão, e herdeiros residuais, que recebem o que sobra. É o núcleo da herança em Bangladesh para a maioria das famílias.
- Esposa: um quarto se o marido não deixar filhos; um oitavo se deixar.[3]
- Marido: metade dos bens da mulher sem filhos; um quarto com filhos.[3]
- Filhas sem filho varão: uma filha recebe metade; duas ou mais repartem dois terços.[3]
- Pai e mãe: um sexto cada, havendo filhos.[3]
Havendo filho varão, as filhas tornam-se residuais com ele e cada filho recebe o dobro de cada filha.[3] As quotas fixas do marido ou da esposa e dos pais saem primeiro; só o remanescente se divide na proporção de dois para um. O cálculo deve ficar por escrito, com o acordo de todos os herdeiros.
Testamento, doação e diferença de religião
Um muçulmano só pode deixar por testamento até um terço dos bens líquidos, e um legado acima disso, ou a favor de quem já é herdeiro, depende do consentimento dos demais.[4] O testamento muçulmano não precisa de probate, porque o artigo 213 do Succession Act 1925 o exclui.[7]
Para casais mistos, o ponto é sensível: segundo as regras clássicas, a diferença de religião pode ser invocada para afastar um não muçulmano da herança de um muçulmano. Uma viúva portuguesa ou brasileira não muçulmana deve, por isso, ser protegida em vida, por doação registrada (heba) ou por legado dentro do terço disponível. Desde 2026, as doações de imóveis exigem também os elementos do artigo 52A do Registration Act 1908, alterado pela Lei n.º 14 de 2026.[10]
Netos órfãos
O direito hanafita clássico excluía o neto cujo pai morrera antes do avô, se este deixasse outro filho. O artigo 4 da ordenança de 1961 mudou essa regra: os filhos do filho ou da filha pré-falecidos recebem, por estirpe, a quota que o progenitor receberia se estivesse vivo.[1] Uma lista de herdeiros que os omita é defeituosa, e a mutação ou a partilha baseada nela fica exposta a impugnação.

Direito hindu e direito cristão
Na escola Dayabhaga, o filho não adquire direito aos bens ancestrais pelo nascimento: os bens passam aos herdeiros apenas por morte do titular. O artigo 3 do Hindu Women's Rights to Property Act 1937 dá à viúva a mesma quota de um filho, como propriedade limitada, com direito a pedir a partilha.[5] Em setembro de 2020, a High Court Division (Divisão do Tribunal Superior) decidiu que esse direito abrange também a terra agrícola.[6]
Segundo o direito clássico, as filhas hindus não herdam em igualdade com os filhos. Um testamento bem redigido, sujeito a probate, é muitas vezes a forma mais eficaz de dar às filhas uma quota plena.[7]
Para cristãos, o Succession Act 1925 trata homens e mulheres por igual nas regras centrais. A viúva recebe um terço havendo descendentes, metade havendo apenas outros parentes e a totalidade na falta de ambos; o viúvo tem os mesmos direitos, e os filhos repartem a parte dos descendentes em igualdade.[7] O testamento cristão exige probate antes de se poder fazer valer em tribunal.[7]
Provar a qualidade de herdeiro
Bancos, empresas, sub-registrars e gabinetes fundiários só atuam quando os herdeiros provam quem são. Escolher o documento errado é uma causa frequente de atraso na herança em Bangladesh.
Certificado warish
O certificado warish (de herdeiros) é um documento administrativo emitido pelo presidente do Union Parishad, pelo presidente do município ou pelo vereador da city corporation.[9] Serve sobretudo para a mutação e a partilha. Em agosto de 2026, no caso Laila Shahed v Bangladesh, a High Court Division confirmou que, havendo disputa sobre quem é herdeiro, a questão cabe ao tribunal cível, não à entidade emissora nem ao processo de writ.[8]
Certificado de sucessão e probate
O certificado de sucessão da parte X do Succession Act 1925 serve para cobrar créditos e valores do falecido, como depósitos bancários, títulos e ações; o artigo 214 impede o tribunal de ordenar o pagamento a quem invoque a sucessão sem esse certificado, probate ou cartas de administração.[7] Os bancos exigem-no quando não há beneficiário indicado.[4] O pedido vai ao juiz distrital da residência habitual do falecido; o certificado não decide a propriedade de imóveis.[7]
O probate certifica o testamento e os poderes do testamenteiro; as cartas de administração nomeiam um administrador quando não há testamento ou testamenteiro.[7] Para heranças espalhadas por vários distritos ou países, dão a uma só pessoa autoridade clara.

Partilha, mutação e mediação obrigatória
A herança cria compropriedade: até à partilha, cada herdeiro tem uma quota indivisa de cada parcela. A escritura que divide imóveis herdados é de registro obrigatório pelo artigo 17(1)(f) do Registration Act 1908, e um documento não registrado não pode criar nem extinguir direitos sobre imóveis, nos termos do artigo 49.[10] O acordo familiar informal, o bontonnama, tem de ser registrado.
Mutação do registro fundiário
A mutação (namjari) atualiza o registro de direitos (khatian) para os nomes dos herdeiros. Uma circular do Ministério da Terra de fevereiro de 2025 confirmou três vias: mutação conjunta apenas com certificado de herdeiros; mutação separada com documento de partilha registrado; e divisão da exploração existente com esse documento.[9] A mutação conjunta é rápida, mas deixa todos como comproprietários de tudo; para vender ou construir, a via separada é mais limpa.
Mediação antes da ação de partilha
A Lei n.º 45 de 2026 alterou o Legal Aid Services Act 2000. Desde 31 de julho de 2026, em 30 distritos notificados, os litígios de partilha da competência do Civil Judge e as questões de família devem passar pela mediação do serviço de apoio judiciário antes da ação; o tempo de mediação não conta para a prescrição e o acordo vale como sentença.[11] Daca não está entre esses distritos; confirme a lista antes de propor a ação.
Herdeiros em Portugal e no Brasil: agir à distância
Viver fora não altera a quota: a herança em Bangladesh segue a lei pessoal do falecido, não a residência do herdeiro. Muda apenas a forma de agir. A maioria dos herdeiros nomeia um familiar ou advogado por procuração assinada na embaixada de Bangladesh e depois autenticada e selada em Daca; o nosso guia sobre power of attorney in Bangladesh explica cada etapa.
Certidões de óbito, casamento e nascimento portuguesas ou brasileiras precisam apenas de apostila: Bangladesh aplica a Convenção desde 30 de março de 2025, e nem Portugal nem o Brasil se opuseram à adesão.[14] Junte tradução para inglês quando necessário e confirme antes com o serviço que vai receber o documento, porque a aceitação ainda é desigual.

Identifique a lei pessoal
Confirme a religião do falecido e verifique se deixou testamento, doações ou dívidas.
Liste todos os herdeiros
Inclua viúvas, filhas e netos órfãos, e calcule as quotas por escrito.
Obtenha a prova certa
Certificado warish para a terra; certificado de sucessão para contas e ações; probate se houver testamento que o exija.
Reúna documentos do estrangeiro
Apostile certidões portuguesas ou brasileiras e prepare traduções para inglês.
Nomeie um procurador
Assine a procuração na embaixada de Bangladesh e conclua autenticação e selagem em Daca.
Formalize a partilha
Converta o acordo familiar numa escritura de partilha registrada.
Faça a mutação
Atualize o khatian, pague o imposto fundiário e obtenha registros de direitos atuais.
Medie antes de litigar
Verifique se o distrito exige mediação prévia antes da ação de partilha.
A tabela compara os documentos com que os herdeiros mais lidam. Em dispositivos móveis, deslize-a lateralmente.
| Documento | Quem emite | Para que serve | Limite |
|---|---|---|---|
| Certificado warish | Union Parishad, município ou city corporation | Mutação, partilha, pensões | Não resolve disputas sobre quem é herdeiro |
| Certificado de sucessão | Juiz distrital (Succession Act 1925, parte X) | Depósitos, títulos e ações | Não decide a propriedade de imóveis |
| Probate | Tribunal | Testamentos hindus e cristãos | Não exigido para testamentos muçulmanos |
| Cartas de administração | Tribunal | Heranças sem testamenteiro | Exigem processo judicial |
| Escritura de partilha | Sub-registrar | Dividir imóveis herdados | Sem registro, não produz efeitos |
| Mutação (namjari) | Assistant Commissioner (Land) | Atualizar o khatian | Não cria propriedade por si só |
Erros que comprometem a herança em Bangladesh
Aplicar a lei pessoal errada; omitir filhas, viúvas ou netos órfãos; confiar num bontonnama não registrado; usar um certificado warish onde é preciso um documento judicial; vender antes da mutação e da partilha; e esquecer as dívidas, que têm prioridade sobre os herdeiros.[1] [10] Para famílias com bens em dois países, o maior erro é tratar cada sucessão isoladamente. Os guias da TRW sobre o succession certificate, a land mutation e a inheritance law in Bangladesh aprofundam cada passo.
Perguntas frequentes
Que lei rege a herança em Bangladesh?
Quanto herda a esposa segundo o direito muçulmano?
Um oitavo havendo filhos e um quarto na falta deles.[3]
As filhas recebem metade dos filhos?
No direito muçulmano, herdando juntos, cada filho recebe o dobro de cada filha. Uma filha única sem irmão recebe metade.[3]
Os netos herdam se o pai morreu antes do avô?
Sim, nos bens muçulmanos, pelo artigo 4 da Muslim Family Laws Ordinance 1961.[1]
A viúva hindu herda terra agrícola?
Qual a diferença entre certificado warish e certificado de sucessão?
Um testamento feito em Portugal vale para bens em Bangladesh?
É preciso escritura registrada para a mutação?
Não para a mutação conjunta, que exige apenas certificado de herdeiros; a mutação separada exige documento de partilha registrado.[9]
A mediação é obrigatória antes da ação de partilha?
Nos 30 distritos notificados desde 31 de julho de 2026, sim, para litígios da competência do Civil Judge. Daca não está incluída.[11]
Certidões portuguesas e brasileiras precisam de legalização consular?
Não: basta a apostila desde 30 de março de 2025, porque Portugal e o Brasil não se opuseram à adesão de Bangladesh.[14]
Registo de fontes
Fontes jurídicas e regulatórias primárias
Materiais verificados em 24 de outubro de 2026. Confirme o texto oficial em vigor antes de se basear em qualquer disposição.
- Muslim Family Laws Ordinance 1961 (sections 3 and 4) — Laws of Bangladesh
- Muslim Personal Law (Shariat) Application Act 1937 — Laws of Bangladesh
- The Quran, Surah an-Nisa 4:11–12 (shares of children, parents, spouses and siblings)
- The Daily Star, 28 July 2020 — The legal rights of Muslim heirs
- Hindu Women's Rights to Property Act 1937 — Laws of Bangladesh
- The Financial Express, 3 September 2020 — Hindu widows will get share of husbands' land: HC
- Succession Act 1925 (Parts V, VI, VIII, IX and X) — Laws of Bangladesh
- Supreme Court of Bangladesh, High Court Division — Laila Shahed v Bangladesh, Writ Petition No. 13635 of 2024 (judgment 3 August 2026)
- Dhaka Tribune / BSS, 17 February 2025 — Govt clarifies mutation issue for inherited land
- Registration Act 1908 (sections 17, 49 and 52A, as amended by Act No. 14 of 2026) — Laws of Bangladesh
- Legal Aid Services Act 2000 as amended by Act No. 45 of 2026, with S.R.O. 288-Law/2026 (Bangla text, Bangladesh Code mirror)
- EUR-Lex — Regulamento (UE) n.º 650/2012 (sucessões)
- Planalto — Decreto-Lei n.º 4.657/1942, Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (artigo 10)
- HCCH — Status table, Apostille Convention (Bangladesh accession and objections)
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